Sinopse
Black Mirror 3: Análise
04/12/2011, em Análises , por Vitor Braz
A maldição dos Gordon poderá ter chegado ao seu final com Black Mirror III, o derradeiro capítulo de uma trilogia que muitos apreciadores de aventuras de horror seguiram com atenção e alguns nervos. Este jogo funciona como sequela direta para o excelente segundo episódio, desenvolvido pela mesma Cranberry Productions, e prova ser um dos expoentes do género.
Longe vai o ano de 2003, altura em que o desconhecido estúdio checo Future Games criou The Black Mirror, um jogo que passou despercebido à maioria da crítica, muito por culpa da sempre vaticinada morte dos jogos de aventura, um género que o valioso mercado norte-americano parece ter deixado de saber apreciar – em vez de boas histórias, terá mais valor a contagem de inimigos caídos…
Ainda assim, os verdadeiros fãs, nomeadamente europeus, souberam apreciar o ambiente de horror bem conseguido e uma narrativa recheada de mistério. Apenas em 2010 é que os alemães da Cranberry Productions pegaram na licença e lhes deram o seu toque pessoal, resultando num Black Mirror 2 bem conseguido e tecnicamente aprimorado. Cerca de um ano depois, chegou Black Mirror 3, que irá de uma vez por todas acabar com os tormentos de Darren Michaels, ou melhor, Adrian Gordon, o último membro da amaldiçoada família.
Uma família à beira de um ataque de nervos
Com os acontecimentos a desenrolarem-se pouco após o trágico mas inconclusivo final do segundo jogo, será normal considerarmos que quem entre na série apenas com Black Mirror 3 se sinta um pouco por fora. Não há como o disfarçar, os recém-chegados irão sentir que apanharam um comboio em movimento e não terão como compreender uma boa parte da história e das referências aos jogos anteriores. Isso não torna a aventura impraticável, visto esta ainda ter muito valor como peça independente, mas será algo como começar a ver a série Lost a partir da terceira temporada.
A história recomeça com Adrian Gordon a correr pela floresta com uma tocha na mão, sendo apanhado pela polícia e acusado de colocar o castelo da sua família em chamas. Preso e acusado sem conseguir recordar o que realmente aconteceu, Adrian vê a sua fiança paga por um anónimo benfeitor. A partir daqui tem a sua liberdade para explorar a vila de Willow Creek e dialogar com os seus receosos habitantes, tentando provar a sua inocência ao mesmo tempo que combate a aparente insanidade que se apodera de si.
O ponto forte de Black Mirror 3 é claramente o seu argumento. Adulto e muito trabalhado, trata os jogadores com respeito e como apreciadores de boas histórias de horror, fazendo os possíveis para lhes oferecer desafios com alguma lógica e que não sejam demasiado rebuscados para travar um progresso fluido dos acontecimentos. O mundo de jogo pode parecer inicialmente limitado mas é na verdade extremamente rico, com uma boa dose de objetos para analisar, contribuindo para a criação da atmosfera. O tom negro e deprimente, agravado por um Adrian Gordon algo arrogante e revoltado pela forma como é tratado, é dos melhores que um jogo de aventura já conseguiu transmitir.
Apesar de nos levar a revisitar muitos dos locais do capítulo anterior, existem pequenos toques que fazem os locais parecerem frescos e não meros reaproveitamentos de material existente. Seja a passagem do tempo ou mão humana, tudo isso contribui para dar a ideia de um mundo em evolução, apesar de obviamente estático – aqui não existe nada de tempo real.
Para além de Adrian Gordon, existem outras personagens que são tratadas com atenção e que nos farão passar por vários momentos marcantes que nos ficarão gravados na mente, tal como num bom filme de terror. A descoberta dos propósitos de cada um e o desenvolvimento do seu relacionamento com o jogador resulta numa solidez que em muito contribui para a qualidade geral da história.
Mas nem tudo é ouro em Black Mirror 3, que acaba por se revelar algo atribulado no seu derradeiro ato. Até então o progresso tem sido envolvente e sólido, com o ocasional puzzle a pontuar a história, para depois nos atirar com uma sucessão de enigmas e puzzles francamente complicados e obscuros. O labirinto em particular é capaz de provocar muitas frustrações até ao mais habituado ao género, exigindo, mais do que raciocínio, tentativa e erro para progredir. Ao contrário de outros puzzles onde um botão aparece para os saltarmos passado algum tempo sem os conseguirmos resolver, este obriga a perder facilmente entre meia e uma hora para o superar. Felizmente que o jogo inclui um autosave para segundos antes das mortes, evitando assim frustrações maiores. Por fim, um puzzle “anatómico” mesmo a concluir a aventura também tem potencial para nos fazer arrancar cabelos… pelo menos a quem não pretenda usar o botão para o resolver automaticamente.
Apesar de nos oferecerem várias “escolhas”, os diálogos do jogo são perfeitamente lineares, servindo o jogador apenas para clicar nos diferentes temas e assistir à conversa que se sucede. Não existem aqui verdadeiras opções, somos meros espetadores, pelo que se saúda a elevada qualidade da escrita para nos manter interessados.
Por fim, sem querer estragar a surpresa, haverá uma parte da aventura onde Adrian Gordon terá de cooperar com alguém, num sistema de controlo alternado que também vemos no excelente The Book of Unwritten Tales. É uma agradável variação na jogabilidade, com cada personagem a ter o seu ponto de vista específico sobre a situação e os objetos.
Bela maldição
Com a sua mistura de personagens 3D e cenários 2D, Black Mirror 3 pisa o mesmo território que o seu antecessor em termos visuais. Os locais são particularmente belos e recheados de detalhes, com animações que podem ser discretas ou mais visíveis para trazer vida ao conjunto. A introdução de elementos que variam um mesmo local, dependendo da fase da história, como chuva torrencial ou a noite, é regra geral excelente e mais uma vez um fabuloso dinamizador do ambiente do jogo.
Apesar de as animações das personagens não estarem ao nível da qualidade dos cenários, estas são aceitáveis e muitas das vezes em contexto com o pano de fundo, coisa que poucos jogos do género se dignam a fazer. Mesmo que Adrian não corra, um duplo clique num ponto de interação salta imediatamente para o local, uma função que todas as aventuras deveriam ter.
Nota claramente negativa vai para as sequências cinemáticas, horríveis (e não no sentido do tema do jogo) e que parecem saídas de um jogo do século passado. Black Mirror 3 merecia um outro empenho neste campo, até porque são formas importantes de pautar a história e nos envolver em momentos chave do argumento.
A banda sonora roça o genial, com composições à base de piano e violino e que surgem nos momentos precisos para nos transmitir sensações de medo, urgência ou melancolia. Os efeitos sonoros constroem a atmosfera de forma convincente, com corvos a fazerem-se ouvir e sons de riachos ou chuva. As vozes acabam por ser o ponto onde não existe consenso, com um Adrian Gordon e outras personagens como a psicóloga a serem muito convincentes, mas o trabalho a sair prejudicado por um desnecessário abuso de sotaques carregados que mais parecem caricaturais. Os principais prevaricadores são o Inspetor Spooner e Valentina.
A trilogia Black Mirror encerra (ou não?) em grande com um capítulo de elevada qualidade. A jogabilidade é acessível a qualquer apreciador e a história é um dos melhores exemplos do seu género, com enigmas que são agradáveis sem ser fáceis, apesar do último ato desiludir quem esperava uma conclusão magistral. Quem jogou pelo menos o segundo episódio tem obrigatoriamente de ver como Adrian Gordon irá lidar com esta maldição secular.
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| Gráficos: 8 | Som: 8 | Jogabilidade: 8 | Pontuação Final: 8/10 |
Jornalista que foi um dos fundadores do portal PTGamers (Março de 1999) e o qual elevou ao estatuto de melhor portal nacional de videojogos. Ao longo de mais de uma década acompanhou de perto a indústria dos videojogos. Fundador do portal PlanetaJogos.pt, que pretende ser uma nova referência no seu campo.






















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