Sinopse
Blades of Time: Análise
03/06/2012, em Análises , por Vitor Braz
Alguns jogos parecem destinados à partida a serem abatidos pela crítica. Sem a força de uma poderosa máquina publicitária por trás, são votados ao esquecimento e julgados sem a imparcialidade que mereciam. Blades of Time é o mais recente exemplo disso mesmo, um jogo de ação discretamente editado há um par de meses para as consolas pela Konami, que dispensou a versão PC, editada agora pela Iceberg Interactive.
Blades of Time é o sucessor espiritual de X-Blades, um jogo do estúdio Gaijin Entertainment que ficou mais conhecido pela leveza (leia-se ausência de roupa) com que a heroína percorria os cenários, num estilo anime que não era desagradável. Agora, chega este jogo que troca o estilo anime por um look mais real, misturando tons de fantasia e ficção científica, repensando ainda a personagem principal – Ayumi –, que mantém o nome de origem mas que mais parece uma seguidora ferrenha de Lara Croft, inclusive no estilo da roupa. Ayumi é o centro das atenções, mas há um jogo hack and slash por trás que é suficientemente competente para merecer a nossa atenção.
Oh tempo, volta para trás (e clona-me)
Comparar Blades of Time com a série Devil May Cry ou Bayonetta é um primeiro passo para categorizar este jogo, mas Ayumi tem alguns truques adicionais na manga para além da velocidade com que se move em combate. A característica mais marcante e original é a sua capacidade de recuar o tempo e usar essa vantagem para eliminar alguns inimigos e resolver inúmeros puzzles. Embora certas vozes possam referir a “inspiração” em outros jogos como Prince of Persia: The Sands of Time, a verdade é que esta capacidade é mais profunda do que nesse jogo. Ao recuar o tempo durante uns bons segundos, Ayumi cria um clone que recalca os seus passos enquanto nós podemos optar por outra abordagem. É possível criar uns quantos clones desta forma e aproveitar as vantagens que isto nos traz – seja desferir uma tempestade de golpes num inimigo muito protegido ou ativar três interruptores em simultâneo, Blades of Time atira-nos com uma boa dose de enigmas para contrabalançar a ação.
Antes de prosseguirmos, uma pequena passagem pela história do jogo. Ayumi é uma destemida caçadora de tesouros e chega à ilha Dragonland, local onde irá rapidamente descobrir poderes inimagináveis e criaturas terríveis. Agora, terá de escapar desta ilha de qualquer forma, enquanto procura Zero, o seu parceiro desaparecido, e se depara com personagens com interesses próprios, como Michelle. Com um tom Tomb Raider inegável, rapidamente percebemos que Ayumi é outro tipo de exploradora, uma que faz do combate e dos poderes especiais as suas maiores armas.

Um exército de clones assim é o sonho de muito bom rapaz.
Ayumi é perita a manusear espadas e pode inclusivamente usar um rifle para atingir inimigos fora de alcance, mas estas são as bases para um sistema mais profundo. Eliminar inimigos e destruir elementos do cenário aumenta a nossa barra de magia, permitindo desbloquear poderes especiais nos altares que encontramos. Entre devastadoras ondas de fogo, ataques de gelo e diversas melhorias, existem umas quantas dezenas de poderes disponíveis. Ayumi irá ganhar ainda uma capacidade imprescindível, a de saltar de coral em coral para alcançar locais distantes, coisa que pode inclusivamente ser usada com os inimigos para lhes aparecermos na face num instante. Ah, Ayumi ainda vai mesmo voar, literalmente, ganhando poderes que fariam inveja a um Deus. Para além do inevitável exército de clones com que deparamos, Blades of Time conta com uma atenção especial nos bosses, tanto nas dimensões como no fator horribilis e na astúcia que é necessária para perceber e contornar os seus pontos fracos.
Não se pode acusar a Gaijin Entertainment de preguiça. A variedade de poderes fala por si e os diferentes ambientes evitam o cansaço visual – desde florestas a templos, desertos, montanhas ou ilhas flutuantes, existe diversidade suficiente para nos manter interessados em descobrir o que se segue. Mas não é apenas a nível estético, os designers tentaram criar um equilíbrio entre combate e enigmas que mantivesse o jogo fresco e isso foi relativamente conseguido. Basta chegar ao deserto para perceber como o jogo ganha outra dimensão com o sol infernal, obrigando Ayumi a andar apenas pelas sombras para não ser queimada num par de segundos. Abre-se assim caminho a uma sucessão de puzzles intercalados com combates que revela alguma inteligência na sua conceção.
Apesar de todo este esforço, Blades of Time não consegue chegar ao nível das referências apontadas alguns parágrafos atrás. O combate acaba mesmo assim por se tornar repetitivo, é confuso quando estamos rodeados de inimigos e a sensação de impacto das nossas lâminas poderia ser melhor. O desenho dos níveis também alterna entre o bom e o medíocre. Resta ainda referir que esta versão PC beneficia e muito do uso de um comando, já que jogar com teclado e rato é exequível, mas a certo ponto a quantidade de teclas chega a ser ingovernável.
Os que adquirirem a edição limitada de Blades of Time têm direito a extras como um mapa adicional para o modo multijogador Outrbreak e ao DLC Dismal Swamp. Este último coloca-nos na pele de Michelle, uma das personagens secundárias da aventura de Ayumi, numa luta pela sobrevivência num pântano. Apesar da mudança de personagem, o controlo e movimento de Michelle é essencialmente semelhante a Ayumi e é apenas interessante para conhecer uma parte paralela da história, mas não particularmente cativante.

E esta não é das criaturas mais imponentes do jogo.
Já o modo Outbreak é inspirado nos populares MOBAs (multiplayer online battle arena), com dois lados (ordem e caos) a tentarem destruir a árvore (base) inimiga. Embora existam alguns extras para motivar os jogadores, também não é por aqui que Blades of Time irá atrair as massas.
Ayumi é uma heroína cativante, não propriamente original mas com carisma suficiente para merecer novas oportunidades nos videojogos. É ágil, de movimentos fluidos, exibe a sua sensualidade a todos os momentos e até muda ocasionalmente de fato durante a aventura – mas não esperem vê-la mais arejada do que com a roupagem com que inicia a aventura. Os inimigos de base estão longe de ser impressionantes, mas certos bosses compensam isso com uma boa dose extra de grotesco e gigante. Artisticamente temos direito a alguns locais bem agradáveis, porventura demasiado angulares aqui e ali mas à viagem não faltam momentos postais.
A inspiração em Lara Croft para esta nova Ayumi poderá ter ido um pouco mais longe, sendo que até na voz se notam semelhanças. O sotaque britânico pode ser visto por uns como coincidência, mas é daquelas coisas que nos deixam a pensar. Mas o que interessa é que o trabalho nas vozes não está mau, faltando apenas alguns detalhes importantes que geralmente distinguem estas produções mais modestas de outras com orçamentos enormes – se Ayumi é faladora e gosta de comentar as situações em que se encontra, a transição entre frases é abrupta, mesmo quando se nota serem da mesma linha de pensamento. É evidente que as frases foram gravadas isoladamente e depois coladas – mal – no jogo consoante as necessidades.
Blades of Time está longe de ser a desilusão que muitos pintaram aquando do lançamento nas consolas e a versão PC ainda ganha em termos de definição dos gráficos, aceitáveis no geral e bons a espaços. A jogabilidade é variada o suficiente para entreter durante as aproximadas oito horas de aventura (sem contar com o DLC) e embora os combates não sejam sempre emocionantes (culpa de uma inteligência artificial rudimentar), existe profundidade que chegue para fazer a experiência valer a pena. Blades of Time pode ser injustamente visto como um patinho feio, mas Ayumi está longe de ser uma companhia desprezível.
* Versão analisada: PC
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| Gráficos: 7 | Som: 6 | Jogabilidade: 7 | Pontuação Final: 7/10 |
Jornalista que foi um dos fundadores do portal PTGamers (Março de 1999) e o qual elevou ao estatuto de melhor portal nacional de videojogos. Ao longo de mais de uma década acompanhou de perto a indústria dos videojogos. Fundador do portal PlanetaJogos.pt, que pretende ser uma nova referência no seu campo.















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