Sinopse
The Book of Unwritten Tales: Análise
28/11/2011, em Análises , por Vitor Braz
Se no cinema a paródia é algo recorrente, nos videojogos esta é uma arte ainda pouco em voga. Referenciar obras de grande estatuto ao mesmo tempo que se oferece uma jogabilidade consistente e capaz de sobreviver por si só é tarefa complicada, mas The Book of Unwritten Tales consegue ser plenamente bem sucedido na sua missão. Não só mistura nomes que todos deverão conhecer como nos brinda com uma aventura inteligente, divertida e longa.
A inspiração maior para a KING Art Games terá sido a saga de O Senhor dos Anéis, algo bem visível na capa de The Book of Unwritten Tales. Mas durante a aventura vamos encontrar outras referências que vão desde Simon the Sorcerer a Monkey Island, World of Warcraft, Star Wars, Missão Impossível e mais. Longe de ser uma mixórdia à procura de personalidade, esta é uma aventura com doses bem distribuídas de homenagem e originalidade, abrilhantada por um elenco genial, que nos surpreende mesmo no capítulo final da história.
Heróis acidentais
No mundo de Aventásia, o exército das trevas comanda, mas uma aliança entre quatro improváveis heróis irá tentar dar a volta à situação: Wilbur, um humilde gnomo sedento de aventura; Ivo, uma bela e atlética elfa; Nate, um pirata destemido e aparentemente sem escrúpulos, e o seu companheiro felpudo e misterioso, Critter. Não poderia haver elenco mais diversificado e com uma química de fazer inveja a muitas estrelas de cinema, suportado por personagens que mereceram elevado cuidado na sua criação e animação. Nenhuma delas parece ter sido deixada ao acaso e vamos encontrar cerca de 35. Algumas delas irão permanecer na nossa memória bem depois de terminado o jogo, algo revelador do excelente trabalho neste campo.
As quatro personagens poderão ser controladas durante a aventura, por vezes alternadamente, usando as suas diferentes capacidades em conjunto para resolver certos enigmas. Ivo faz uso da sua capacidade atlética para superar certos obstáculos, para além de usar a sua brilhante mente. Já Wilbur é pura ingenuidade e dedicação à causa, maravilhado pelo que o mundo exterior lhe apresenta e realizando comentários que geralmente nos trazem um sorriso. Nate parece inspirado em Han Solo, um relutante e arrogante pirata que acaba por ver os seus valores a sobreporem-se à sua aparente falta de vontade em colaborar na causa. O seu companheiro peludo, um Critter, permanece um mistério até à parte final da aventura, para então se revelar como uma apaixonante criação, um mimo (nos dois sentidos da palavra) que consegue com meros gestos nos sacar algumas gargalhadas. A sua simples aparência indiciava tudo menos isso, mas o Critter quase consegue roubar os holofotes aos restantes heróis durante o seu pouco tempo em cena. De tal forma que uma prequela para este jogo está em desenvolvimento, sobretudo dedicada a ele: The Book of Unwritten Tales: Critter Chronicles.
O começo da aventura, ironicamente, é um dos poucos momentos em que a alta qualidade do jogo se esconde durante alguns minutos. A sequência cinemática inicial destoa do que se segue, apresentando personagens algo cruas e pouco apelativas a nível visual. Felizmente que esta primeira impressão se dilui poucos minutos depois, quando passamos o começo da aventura com Ivo e entramos na (pequena) pele do gnomo Wilbur. Começa assim o trabalho no desenvolvimento da personalidade deste pequeno ser, voluntarioso e desenrascado, dando-nos uma ideia do estilo de enigmas que vamos encontrar em The Book of Unwritten Tales.
Quarteto Fantástico
Clássico no seu desenrolar mas com extrema atenção ao detalhe, este jogo atira-nos enigmas na sua maioria acessíveis, elevando gradualmente a dificuldade mas sem nos colocar em situações completamente obscuras. A barra de espaços permite visualizar todos os pontos de interação do ecrã, evitando uma intensa procura por algo que não era particularmente notório. Ainda assim, não foge a um dos problemas de muitos jogos do género, que é o de permitir a descoberta ou combinação de objetos antes de sabermos qual o seu propósito. Embora não seja possível correr, esta lacuna não é tão grave como se poderia pensar, dado que as personagens se movem a um ritmo desembaraçado e um duplo clique numa saída salta imediatamente para esse local. Em certas zonas temos ainda um mapa que nos poupa o tempo de deslocação.
Para além dos enigmas, temos alguns puzzles que obrigam a um certo raciocínio, como o da roda da sorte que nos obriga a “adivinhar” as cores, o fabrico de uma poção ou o templo que acaba por ser um enorme puzzle por si só. Não foi sequer deixado de fora um momento Dance Dance Revolution, onde Nate mostra as suas capacidades de pior dançarino do mundo.
Raramente visto numa típica aventura, é possível controlar dois ou três dos heróis alternadamente, clicando nas suas fotos para mudar entre eles. Apesar de uma ocasional pequena pausa entre a transição – o tempo da personagem se recolocar no seu local passivo –, o sistema funciona na perfeição, sendo possível passar itens entre os protagonistas ou dialogar. Esta ideia acrescenta uma dimensão tática essencial aos puzzles, cimentando a sua cooperação e o desenvolvimento das suas relações pessoais, coisa que tem real importância no desenrolar da aventura.
The Book of Unwritten Tales é um dos mais divertidos jogos de aventura de sempre, estatuto que não é atribuído com leveza, mas força é de constatar que durante as muito simpáticas 15 a 20 horas de duração, vamos encontrar inúmeras situações recheadas de humor e não só daquele que referencia outras obras. Estar a descrevê-las seria estragar boa parte da piada e retirá-las do contexto, mas entre paladinos apreciadores de rosa e pompons, conversas com a morte ou uma emocionante aventura de Wilbur que não chegamos a ver no ecrã, existem incontáveis momentos memoráveis. O humor tem o condão de nunca parecer ridículo ou abusado, os argumentistas conhecem os seus limites e nunca tratam o jogador como um fã de pobres sátiras cinematográficas onde a mesma piada é repetida à exaustão, normalmente envolvendo gases ou excrementos. Aqui, o humor bem pode atirar para todos os lados, os diálogos são geralmente divertidos, mas o jogo nunca perde o senso de bom gosto.
Um conto de elevado orçamento
Em termos puramente técnicos, pouco há a apontar a The Book of Unwritten Tales. Tirando as poucas sequências francamente a destoar com a restante qualidade e uma ou outra personagem pior animada (o caso do dragão), este é um livro de alto gabarito. O estilo artístico é genial, abundando de detalhes e bem trabalhado em termos de iluminação, cor e escolha de perspetiva. Os locais conseguem ainda ser completamente distintos uns dos outros, nunca acusando a mínima repetição.
As personagens são também elas dotadas de um design de excelência e animações muito cuidadas, não só os protagonistas como o restante elenco de suporte. Os artistas chegaram ao ponto de adicionar vários gestos específicos para determinadas situações, alargando assim o leque de animações e contribuindo para uma sensação de maior vida nestas personagens. Apenas temos a apontar um ou outro erro na tradução do original alemão para inglês e o súbito aparecimento de legendas alemãs durante um breve trecho na parte final do jogo.
O som encontra-se a par dos gráficos, enriquecendo a atmosfera, incluindo um jingle que surge quando cumprimos um determinado objetivo. Mas o destaque maior vai mesmo para as vozes, sendo que não temos memória de encontrar um jogo de aventura com tamanha qualidade neste campo. Completamente apropriadas e extremamente profissionais, assentam na perfeição às quatro personagens principais – mesmo os grunhidos do Critter – e o restante elenco foi merecedor de semelhante atenção. A banda sonora que é mesmo alvo de edição em CD à parte é de topo, não se coibindo de piscar o olho a temas famosos mas sempre com o tom adequado à situação.
No final desta memorável aventura ficamos com um amargo de boca por dois motivos – por um lado, as mais de 15 horas de duração voaram sem darmos conta; por outro, o desfecho de The Book of Unwritten Tales parece ter ainda assim sido apressado, deixando tudo em aberto para uma provável sequela. No entanto, costuma dizer-se que o que vale é a viagem e não o destino e isso aplica-se plenamente a este jogo.
Com valores de produção e atenção ao detalhe pouco usuais para uma aventura, um humor que quase sempre acerta no alvo e uma longevidade de meter inveja a muitos títulos, The Book of Unwritten Tales é imperdível. O seu classicismo é disfarçado pelo enorme trabalho e paixão, com um elenco de sonho e uma história que bem pode ir beber inspiração a várias fontes, mas acaba por ser muito sua. Qualquer fã do género que se preze tem de mergulhar de cabeça neste “livro”, folheá-lo com dedicação e desfrutar de um dos melhores jogos de aventura dos últimos anos.
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| Gráficos: 9 | Som: 9 | Jogabilidade: 9 | Pontuação Final: 9/10 |
Jornalista que foi um dos fundadores do portal PTGamers (Março de 1999) e o qual elevou ao estatuto de melhor portal nacional de videojogos. Ao longo de mais de uma década acompanhou de perto a indústria dos videojogos. Fundador do portal PlanetaJogos.pt, que pretende ser uma nova referência no seu campo.



















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