Sinopse
Trinity Universe: Análise
07/08/2010, em Análises , por Vitor Braz
Não são raras as vezes em que desejamos ver personagens famosas de videojogos saltarem de um universo para outro. Seria um sonho ter Lara Croft a fazer dupla com Indiana Jones, ou ver Snake e Sam Fisher em parceria num jogo certamente muito especial. Felizmente que estes encontros já começam a ser vistos com bons olhos pelas firmas detentoras dos direitos, e foi assim que pudemos ver Mario e Sonic a praticar desporto juntos – provavelmente longe de ser a melhor forma de explorar as capacidades desta dupla – ou os heróis da Marvel à pancada com as personagens da Capcom, entre outros. O recente anúncio de Street Fighter X Tekken (e vice-versa) prova que esta estratégia consegue deixar os fãs ansiosos.
Esta longa introdução vem a propósito de um outro cruzamento de universos, desta vez entre a GUST e a Nippon Ichi, ainda com a ajuda da Idea Factory. Duas das mais reputadas produtoras de RPG juntam-se em Trinity Universe para criar um jogo dentro do estilo que bem dominam, existindo um claro potencial que acabou por não ser devidamente explorado. As personagens conhecidas são apenas cinco: Flonne, Etna e Prinny da série Disgaea (Nippon Ichi) e Pamela Ibis e Violet Platane da série Atelier (GUST). Os restantes nomes são criações originais para este RPG exclusivo PS3.
Dois heróis, duas histórias, montes de lixo a flutuar no espaço
Trinity Universe parece todo ele ter sido feito com uma enorme descontracção, mesmo quebrando a ideia da “quarta parede”. Isto quer dizer que as personagens não hesitam em se dirigir ao jogador ou em mencionar vários elementos do próprio jogo, como referências à subida de nível de experiência, por exemplo. A verdade é que isto acaba por ser porventura o ponto mais positivo de todo o jogo, com um argumento invariavelmente “parvo” (esperem algumas piadas sobre raparigas de peito liso) e bem-humorado.
A relação entre as personagens leva a estes divertidos momentos, mas também a diálogos que muitas das vezes se estendem durante largos minutos sem levar a lado nenhum. A falta de interacção do jogador nestas fases é um ponto negativo, dada a insistência nestas sequências onde somos um mero espectador. Um espectador normalmente divertido, certo, mas por vezes também desejoso de avançar na história.
Falando da história, também ela parece ter saído de mentes algo fatigadas dos convencionais mapas de fantasia, com as suas florestas, vilas, masmorras e afins. O mundo do jogo é o Netheruniverse, um local onde objectos e locais de várias dimensões vão orbitar. É entrando nestes objectos que acedemos às fases de diálogo ou às masmorras. Trinity Universe oferece-nos duas histórias paralelas, que se cruzam regularmente: Kanata, o Demon Dog King representa o nível mais fácil, enquanto a Valkyrie Rizelea é para jogadores já habituados aos trâmites do jogo. O propósito de Kanata é escapar do seu destino de ser transformado numa jóia, ritual que impediria que todos estes objectos pudessem colidir com a sua terra natal de Empyria. Já Rizelea tem precisamente o objectivo contrário, que é o de manter a paz e tranquilidade para Empyria, e levar Kanata a aceitar a sua transformação representaria o sucesso da sua missão.
Trinity Universe é facilmente dividido entre duas fases: os diálogos em ecrãs fixos e a exploração das masmorras. No primeiro caso vemos as personagens em 2D com um estilo artístico de alto gabarito, animações ligeiras e cores vivas e contagiantes, mas não nos é permitida nenhuma interacção ou exploração, somos meros espectadores dos diálogos. Na segunda situação entramos na clássica fase de descoberta de masmorras, com tudo o que isso acarreta, para o melhor e para o pior. O design dos níveis é fraco e repetitivo, a representação 3D das personagens fica a quilómetros dos seus desenhos 2D, e tudo deixa um ar de jogo saído da anterior consola PS2, não da PS3.
Numa masmorra os tesouros estão escondidos e gerados aleatoriamente, pelo que é necessário usar uma limitada função de pesquisa para descobrir os locais onde se encontram. Uma das linhas serve para os tesouros, outra para o objectivo da masmorra, o centro de gravidade que deve ser destruído para enviar o objecto para longe de Empyria.
Os confrontos com os inimigos são aleatórios, mas a pouca variedade destes também contribui para um sentimento de monotonia durante aquilo que deveria trazer maior animação ao jogo. De resto temos um sistema de combate tradicional com uma ou outra alteração, sobretudo a capacidade de poupar pontos de acção para a ronda seguinte e assim conseguir maiores e mais devastadores combos. A introdução dos Managraphics (desenhos que compramos para as armas) oferecem mais alguns poderes, sejam curativos ou ofensivos. A aparente complexidade do sistema é enganadora, com os confrontos a se repetirem sem necessidade de grandes estratégias.
Após conquistar uma masmorra e subir uns quantos níveis de experiência, regressamos para sintetizar alguns itens, melhorando assim o nosso equipamento. No entanto, esta é uma tarefa também ela um pouco ingrata, dada a falta de estatísticas facilmente acessíveis para cada objecto. A interface de Trinity Universe nem sempre é um modelo a seguir.
Se existe uma área onde Trinity Universe se supera é na duração de vida. Com cada uma das duas histórias a poderem facilmente exigir mais de 20 horas, temos aqui jogo para muito tempo. Os jogadores que conseguirem habituar-se às pouco emocionantes masmorras, que raramente diferem mais do que nas texturas mas mantendo um design pouco inspirado, terão aqui muito para explorar. A diversidade de objectos em órbita também poderá incentivar a renovadas explorações, já que estes costumam sair regularmente, perdendo-se assim a hipótese de os visitar.
Se em termos gráficos já tudo foi dito – 2D de qualidade e 3D medíocre –, quanto ao som ainda há que escrutinar. A música tem como base um pop japonês alegre e colorido, capaz de ficar no ouvido, mas o tema principal é usado em demasia. Quanto às vozes, entre inglesas e japonesas, são de qualidade e adequadas às personagens em questão.
Trinity Universe acaba por ser uma partilha de risco – e lucro – através de três produtoras, mas pelo caminho esqueceram-se da audácia necessária para um projecto destes. O que se destaca do jogo é o seu humor, sem dúvida o ponto forte, mas a exploração das masmorras quase parece saída de outra obra inferior. Tri-Uni é assim destinado aos fãs do género e das personagens em questão, mas com um pouco de arrojo poderia ser um RPG a desfrutar por mais jogadores.
| Gráficos: 6 | Som: 7 | Jogabilidade: 6 | Pontuação Final: 6/10 |
Jornalista que foi um dos fundadores do portal PTGamers (Março de 1999) e o qual elevou ao estatuto de melhor portal nacional de videojogos. Ao longo de mais de uma década acompanhou de perto a indústria dos videojogos. Fundador do portal PlanetaJogos.pt, que pretende ser uma nova referência no seu campo.

















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